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O conto de hoje à noiteVelhas chamas1 min

Memória Muscular

Ela não pretendia acabar sozinha com ele. Era sempre assim que começava.

A cozinha era mais silenciosa que o resto do apartamento — apenas o zumbido da geladeira e, agora, ele, virando-se quando a ouviu chegar.

—Oi — disse ele. Era o mesmo oi. Aquele que significava: estou te esperando.

Ela estendeu o braço passando por ele para pegar um copo, do jeito que costumava fazer para tudo — seu corpo todo um território familiar do qual havia perdido o direito de atravessar. Seu braço roçou o ombro dele. Nenhum dos dois se moveu.

Conversaram sobre a festa. Sobre amigos em comum. Sobre nada em absoluto. Ela observava as mãos dele quando falava — o modo como puxava o colarinho quando estava prestes a dizer algo verdadeiro.

—Você está—começou ele. —Não — ela disse. Sem crueldade. Ele assentiu, deixou passar. Ele sempre havia sabido qual frase deixar inacabada.

Ela serviu água que não queria e ficou de pé bebendo-a, e toda a terrível arquitetura deles subiu silenciosamente ao seu redor — todos os quartos que haviam compartilhado, todos os silêncios que haviam tornado específicos.

Lá fora, alguém riu. Alguém mudou a música. Ele disse seu nome, uma vez, suavemente — não a chamando para lugar nenhum, apenas dizendo-o como algo que ainda lhe pertencia.

—Eu deveria voltar — ela disse. —É — ele disse. Ele também não se moveu.

E ela pensou: é isto que ninguém te conta — que não desaparece. Que o corpo guarda seu próprio registro privado, paciente como a pedra, pronto para oferecer toda a história de volta ao menor indício.

Ela se moveu em direção à porta. Sentiu o olhar dele pousar no seu ombro como uma mão.

Ela não olhou para trás. Aquele havia sempre sido seu truque.

O catálogo

Escolha um para levar para a cama.

Cada conto é uma leitura independente de cerca de um minuto. Cada um tem sua própria URL — clique para abrir, copie para compartilhar. O catálogo cresce; nada é apagado.

A publicação

Ficçãoadulta,escritacomoseimportasse.

SparkBang publica um novo conto breve toda noite. Não fazemos vídeo, nem nada em streaming. Fazemos prosa — breve, carregada, do tipo que você sublinharia num livro se o tivesse em papel.

  1. Um conto, toda noite

    Um conto novo chega à meia-noite, horário do Pacífico. O de hoje à noite está no topo da página. O de ontem está no catálogo. O de anteontem, o de antes, todos até o começo — estão lá, exatamente como foram escritos.

    Toda noite
  2. Sugestivo, não explícito

    Escrevemos o segundo antes e o segundo depois. Confiamos a você a parte do meio. Os contos são breves de propósito, sugestivos de propósito, e editados até que cada frase mereça o seu lugar.

    Por ofício
  3. Seu para compartilhar, não para se apropriar

    Cada conto tem uma URL limpa. Mande. Cite com crédito. Leia em voz alta para quem merecer. Não publique como seu — a autoria importa.

    Estante aberta

A postura de leitura

Como ler isso.

Uma publicação breve é um ritual breve. Estas são as sete instruções que nossos editores colaram na parede acima da escrivaninha. Tome emprestado.

  1. Procure uma janela.

    Abra-a se puder. O tipo de ar que entra por uma janela é o tipo de ar para o qual isso foi feito.

  2. Apague a luz do teto.

    Um abajur está ótimo. A luz de uma vela também. Sua tela também, no brilho mínimo.

  3. Deixe o celular virado.

    Sem notificações, sem rolar a tela, sem dar sinal de vida durante o próximo minuto.

  4. Não beba nada ainda.

    Guarde a taça para depois. Primeiro, leia.

  5. Leia em voz alta se estiver sozinho.

    Sussurre se não estiver. Mova os lábios de qualquer forma — estes contos foram escritos para serem ouvidos.

  6. Não leia em diagonal.

    Cada conto é breve de propósito. O ritmo é o que importa. As frases duram exatamente o que precisam durar.

  7. Fique com ele um minuto depois.

    Não recarregue, não compartilhe, não conte para ninguém ainda. Deixe a última frase pousar antes de se mover.

— Os editores