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O catálogoVelhas chamas1 min

Memória Muscular

A woman in a pale slip dress reaching past a man in a white shirt for a glass by the kitchen sink at a party, neither of them looking at the other, a lit lamp and strings of coloured lights in the room behind them.
She reached past him for a glass, the way she used to.

Ela não pretendia acabar sozinha com ele. Era sempre assim que começava.

A cozinha era mais silenciosa que o resto do apartamento — apenas o zumbido da geladeira e, agora, ele, virando-se quando a ouviu chegar.

—Oi — disse ele. Era o mesmo oi. Aquele que significava: estou te esperando.

Ela estendeu o braço passando por ele para pegar um copo, do jeito que costumava fazer para tudo — seu corpo todo um território familiar do qual havia perdido o direito de atravessar. Seu braço roçou o ombro dele. Nenhum dos dois se moveu.

Conversaram sobre a festa. Sobre amigos em comum. Sobre nada em absoluto. Ela observava as mãos dele quando falava — o modo como puxava o colarinho quando estava prestes a dizer algo verdadeiro.

—Você está—começou ele. —Não — ela disse. Sem crueldade. Ele assentiu, deixou passar. Ele sempre havia sabido qual frase deixar inacabada.

Ela serviu água que não queria e ficou de pé bebendo-a, e toda a terrível arquitetura deles subiu silenciosamente ao seu redor — todos os quartos que haviam compartilhado, todos os silêncios que haviam tornado específicos.

Lá fora, alguém riu. Alguém mudou a música. Ele disse seu nome, uma vez, suavemente — não a chamando para lugar nenhum, apenas dizendo-o como algo que ainda lhe pertencia.

—Eu deveria voltar — ela disse. —É — ele disse. Ele também não se moveu.

E ela pensou: é isto que ninguém te conta — que não desaparece. Que o corpo guarda seu próprio registro privado, paciente como a pedra, pronto para oferecer toda a história de volta ao menor indício.

Ela se moveu em direção à porta. Sentiu o olhar dele pousar no seu ombro como uma mão.

Ela não olhou para trás. Aquele havia sempre sido seu truque.