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O conto de hoje à noiteA manhã seguinte1 min

À Luz do Dia

A cozinha dele não guardava nada digno desse nome — um limão amolecendo na tigela, uma caixa de comida para viagem desistindo no fundo da geladeira. Ele se ergueu depois de examiná-la como um homem revendo provas contra si mesmo.

— Tem uma lanchonete — disse ele. — Duas portas depois. Fazem ovos como quem fala a sério.

Ela ainda vestia a roupa da noite anterior, aquela que fazia todo sentido às onze e agora, às nove, parecia figurino de uma peça cujo texto ela já não lembrava. Conferiu o próprio reflexo no cromado da torradeira e não vacilou.

— Assim? — perguntou. Falava do vestido. Falava de toda a verdade visível das últimas doze horas, a ponto de passar por uma recepção à luz do dia.

— Assim — disse ele, e sustentou a porta aberta.

A rua fazia algo que um quarto nunca precisa fazer. Dava nome às coisas. Um homem passeando com o cachorro olhou duas vezes — sem maldade, pura aritmética, a soma evidente de um vestido amarrotado e um homem sem barbear.

Ela riu, baixinho, e segurou o braço dele antes mesmo de decidir fazer isso. — A gente parece exatamente o que é.

— Isso é um problema?

— Não — disse ela, surpresa por não ser. — É só barulhento, só isso. A noite foi discreta sobre o assunto.

Ele encontrou o passo dela com a naturalidade que alguns homens só alcançam depois de meses — sem meio compasso de hesitação, sem olhar o relógio, sem fingir indiferença para o cachorro de um estranho. A vitrine da lanchonete tinha embaçado nas bordas. A xícara de café de alguém tinha deixado um anel no quadro de pratos do dia.

Lá dentro, uma garçonete pôs dois copos de água sem que ninguém pedisse e olhou para os dois do jeito que garçonetes olham para quem entra assim: como quem já viu aquilo cem vezes e ainda vai ver mais cem, sem pensar mal de nenhum dos dois por isso.

Nenhum dos dois disse o que tinha sido aquela noite. Não precisavam. Já tinham dito, ao saírem juntos pela porta para uma rua que não sabia guardar segredo — e que não tinha pedido a nenhum dos dois que guardasse um.

O catálogo

Escolha um para levar para a cama.

Cada conto é uma leitura independente de cerca de um minuto. Cada um tem sua própria URL — clique para abrir, copie para compartilhar. O catálogo cresce; nada é apagado.

A publicação

Ficçãoadulta,escritacomoseimportasse.

SparkBang publica um novo conto breve toda noite. Não fazemos vídeo, nem nada em streaming. Fazemos prosa — breve, carregada, do tipo que você sublinharia num livro se o tivesse em papel.

  1. Um conto, toda noite

    Um conto novo chega à meia-noite, horário do Pacífico. O de hoje à noite está no topo da página. O de ontem está no catálogo. O de anteontem, o de antes, todos até o começo — estão lá, exatamente como foram escritos.

    Toda noite
  2. Sugestivo, não explícito

    Escrevemos o segundo antes e o segundo depois. Confiamos a você a parte do meio. Os contos são breves de propósito, sugestivos de propósito, e editados até que cada frase mereça o seu lugar.

    Por ofício
  3. Seu para compartilhar, não para se apropriar

    Cada conto tem uma URL limpa. Mande. Cite com crédito. Leia em voz alta para quem merecer. Não publique como seu — a autoria importa.

    Estante aberta

A postura de leitura

Como ler isso.

Uma publicação breve é um ritual breve. Estas são as sete instruções que nossos editores colaram na parede acima da escrivaninha. Tome emprestado.

  1. Procure uma janela.

    Abra-a se puder. O tipo de ar que entra por uma janela é o tipo de ar para o qual isso foi feito.

  2. Apague a luz do teto.

    Um abajur está ótimo. A luz de uma vela também. Sua tela também, no brilho mínimo.

  3. Deixe o celular virado.

    Sem notificações, sem rolar a tela, sem dar sinal de vida durante o próximo minuto.

  4. Não beba nada ainda.

    Guarde a taça para depois. Primeiro, leia.

  5. Leia em voz alta se estiver sozinho.

    Sussurre se não estiver. Mova os lábios de qualquer forma — estes contos foram escritos para serem ouvidos.

  6. Não leia em diagonal.

    Cada conto é breve de propósito. O ritmo é o que importa. As frases duram exatamente o que precisam durar.

  7. Fique com ele um minuto depois.

    Não recarregue, não compartilhe, não conte para ninguém ainda. Deixe a última frase pousar antes de se mover.

— Os editores