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O conto de hoje à noiteVelhas chamas1 min

Remendo

A woman with long wavy dark auburn hair and an olive complexion stands with her cream silk blouse open and slipping off one shoulder, her hand resting in the hair of a man with short black hair and wire-rimmed glasses who bends his head to her breastbone with a needle and thread held between his lips, warm lamplight beside a bed in a dark room.
Hold still.

Ela chegou do jantar com uma mão pressionada contra a clavícula, segurando a blusa fechada onde o botão sobre o esterno já se tinha soltado. Sentira-o ceder algures entre o segundo prato e a porta, um fio desgastado por anos de lavagens cuidadosas à mão, e passara o resto da noite a falar normalmente, com a mão no colo, como se nada fosse.

— Fica quieta — disse ele, antes mesmo de ela acabar de explicar, e foi direito à lata de costura em cima da estante, sem ser preciso pedir duas vezes.

Ela ficou quieta. Ele não lhe pediu para tirar a blusa, e ela compreendeu, da forma como se compreende algo de alguém com quem se dorme há quinze anos, que ele queria fazê-lo assim, com ela ainda vestida — mais rápido dessa maneira, e havia algo no rosto dele que também queria isso.

Fora a avó dele que lhe ensinara: dois dedos sempre lisos por baixo do tecido, para que a agulha nunca tocasse a pele debaixo dele. Disse-o em voz baixa enquanto enfiava a linha na agulha à luz do candeeiro, mais para acalmar as próprias mãos do que para lhe contar algo que ela já não soubesse.

— Não respires — disse ele, quando a agulha se aproximou, e ela riu-se uma vez, baixinho, e mesmo assim prendeu a respiração, sentindo a pressão fria e lisa dos nós dos dedos dele contra o esterno e o puxão pequeno e exacto da linha a atravessar a seda, mesmo por cima.

Não havia tesoura na mesinha de cabeceira, por isso, com o botão colocado e firme, ele inclinou a cabeça para o peito dela e fechou os dentes em torno da linha, e ela sentiu o calor da respiração dele ali meio segundo antes de o sentir ceder.

— Pronto — disse ele, e não ergueu a cabeça logo, e o polegar ficou sobre o botão que acabara de arranjar, como se quisesse ter a certeza do próprio trabalho, ou não estivesse ainda pronto para dar aquilo por terminado.

O serão tinha acabado. Já nada esperava do outro lado dele, nem havia ninguém para quem representar a noite. Os dedos dele voltaram a encontrar o botão — desta vez não para o verificar — e começaram, devagar, a desfazer o que tinham acabado de coser.