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O conto de hoje à noiteVelhas chamas1 min

Luz da Cozinha

A dim kitchen at night: a low pendant light hangs over a wide wooden table holding two glasses of red wine and an upright glowing phone, dark cabinets and a curtainless window behind, bare wood-plank floor.
Nobody had touched the dishes.

A casa nunca tinha estado tão silenciosa. Nem quando o carro saiu da garagem rumo a um alojamento universitário a quatro horas de distância. Nem quando vinte anos de música de outra pessoa saíram pela porta dentro de malas de viagem, no meio de uma canção, para nunca mais voltar.

Não tinham tocado na louça. Vinte e dois anos de aniversários lhes tinham ensinado a nunca deixar bagunça durante a noite, e esta noite o hábito se quebrou por outro motivo — nenhum dos dois se afastara do balcão desde que as luzes traseiras dobraram a esquina.

O telemóvel dele continuava apoiado contra a fruteira, ainda a tocar algo de uma playlist da época do casamento que ele não abria havia anos. Uma canção se escolheu sozinha. Nenhum dos dois estendeu a mão para saltá-la.

«Dança comigo», disse ele, e saiu mais simples do que pretendia — sem uma piada dobrada dentro para suavizar, o tipo de frase que, vinte anos antes, ele teria precisado de três copos para dizer sem rodeios.

Ela olhou para ele do jeito que costumava olhar do outro lado de um bar, antes de haver uma hipoteca ou um filho ou um sobrenome partilhado — sem pressa, avaliando, como se ainda não tivesse decidido.

Ela pousou o pano de prato e atravessou o linóleo, e ele sentiu a velha corrente atravessar a sala no instante em que a mão dela encontrou seu ombro. A mesma corrente. Só que sem os vinte e dois anos de isolamento por cima.

Ele a puxou pela curva das costas, mais perto do que a canção exigia. Ela deixou. A respiração dela travou em algum lugar que ele sentiu mais do que ouviu.

Ninguém na casa para ouvi-los não falar. Ninguém no corredor para interromper nada. Só a luz da cozinha, e os dois de pé, a meio passo de lembrar exatamente quem tinham sido antes de serem pais de alguém — e nenhum dos dois se moveu para fechar essa distância.

O catálogo

Escolha um para levar para a cama.

Cada conto é uma leitura independente de cerca de um minuto. Cada um tem sua própria URL — clique para abrir, copie para compartilhar. O catálogo cresce; nada é apagado.

A publicação

Ficçãoadulta,escritacomoseimportasse.

SparkBang publica um novo conto breve toda noite. Não fazemos vídeo, nem nada em streaming. Fazemos prosa — breve, carregada, do tipo que você sublinharia num livro se o tivesse em papel.

  1. Um conto, toda noite

    Um conto novo chega à meia-noite, horário do Pacífico. O de hoje à noite está no topo da página. O de ontem está no catálogo. O de anteontem, o de antes, todos até o começo — estão lá, exatamente como foram escritos.

    Toda noite
  2. Sugestivo, não explícito

    Escrevemos o segundo antes e o segundo depois. Confiamos a você a parte do meio. Os contos são breves de propósito, sugestivos de propósito, e editados até que cada frase mereça o seu lugar.

    Por ofício
  3. Seu para compartilhar, não para se apropriar

    Cada conto tem uma URL limpa. Mande. Cite com crédito. Leia em voz alta para quem merecer. Não publique como seu — a autoria importa.

    Estante aberta

A postura de leitura

Como ler isso.

Uma publicação breve é um ritual breve. Estas são as sete instruções que nossos editores colaram na parede acima da escrivaninha. Tome emprestado.

  1. Procure uma janela.

    Abra-a se puder. O tipo de ar que entra por uma janela é o tipo de ar para o qual isso foi feito.

  2. Apague a luz do teto.

    Um abajur está ótimo. A luz de uma vela também. Sua tela também, no brilho mínimo.

  3. Deixe o celular virado.

    Sem notificações, sem rolar a tela, sem dar sinal de vida durante o próximo minuto.

  4. Não beba nada ainda.

    Guarde a taça para depois. Primeiro, leia.

  5. Leia em voz alta se estiver sozinho.

    Sussurre se não estiver. Mova os lábios de qualquer forma — estes contos foram escritos para serem ouvidos.

  6. Não leia em diagonal.

    Cada conto é breve de propósito. O ritmo é o que importa. As frases duram exatamente o que precisam durar.

  7. Fique com ele um minuto depois.

    Não recarregue, não compartilhe, não conte para ninguém ainda. Deixe a última frase pousar antes de se mover.

— Os editores