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O conto de hoje à noiteAo anoitecer1 min

Nove Andares Acima

A woman with long black hair in a thin dark slip, one strap fallen off her shoulder, face-to-face with a man in an unbuttoned white shirt, her arm around his neck and his hand at her waist, foreheads together at a rooftop parapet, a lit window and a blurred night skyline behind them.
Nine floors up, with nobody below to see.

O apartamento ficava nove andares acima, e as janelas haviam sido pintadas e seladas dois proprietários atrás, então em noites como aquela o calor simplesmente ficava ali com eles, paciente, recusando-se a ser convencido. Ela tinha desistido de tentar dormir uma hora antes. Ele tinha desistido de fingir uma hora depois.

Ela encontrou a porta da escada no fim do corredor — a do sensor de alarme coberto com fita e a placa com o nome de uma inquilina que já não morava mais ali — e começou a subir sem dizer para onde. Ele foi mesmo assim, dois degraus atrás, do jeito que sempre fazia quando o destino importava menos que a saída.

O telhado ainda guardava o calor do dia no piche sob os pés, mais macio que o asfalto, morno na sola dos pés do jeito que uma mão segurada continua morna depois que a soltam. Um reservatório de água erguia-se negro contra o céu numa das pontas, e o varal esquecido de alguém pendia frouxo entre dois dutos, três pregadores e nada mais para sustentar.

Nove andares abaixo, a cidade tinha se reduzido a uma grade de janelas douradas e baixas e uma ambulância, distante, sem pressa para onde quer que fosse. Aqui em cima o barulho chegava já suavizado, e nada dele tinha a ver com eles.

Ela foi até o parapeito e apoiou as duas mãos abertas na borda, testando a altura do jeito que alguém testa a água antes de realmente decidir entrar. Ele se aproximou por trás, ainda sem tocá-la, perto o bastante para que ela sentisse a decisão no ar antes de sentir a ele.

— Ninguém pode nos ver aqui em cima — disse ela, mais para o horizonte do que para ele.

— Essa é a parte de que eu gosto — disse ele, e pousou as mãos na cintura dela como se tivesse esperado permissão para dizer exatamente aquilo.

Ela se virou dentro das mãos dele para encará-lo em vez da cidade, e algo dentro dela que quatro lances de escada e quatro paredes sempre tinham mantido cuidadosamente dobrado se abriu do jeito que só se abria quando não havia ninguém lá embaixo exigindo outra coisa dela. A testa dele encontrou a dela antes da boca, paciente, com a mesma calma sem pressa que o calor tinha tido a noite inteira, só que agora trabalhando a favor dela em vez de contra.

Nenhum dos dois disse mais nada que o telhado pudesse ter escutado. O reservatório de água guardou seu silêncio, o varal manteve seus três pregadores, e a cidade manteve suas janelas douradas acesas para ninguém em particular, enquanto eles, nove andares acima, descalços sobre o piche ainda morno de um dia que nenhum dos dois tinha querido, seguiam exatamente tão invisíveis quanto precisavam ser.