A plataforma tinha esvaziado havia uma hora, restando só ela e uma máquina de vendas que zumbia sua única nota fixa para dentro do escuro. Lá em cima, o painel de letras giratórias girava suas rodinhas com um som de respiração presa, indecisa entre soltar ou não: 23h47 virou 23h51, e, um minuto depois, 23h54.
Ela tinha parado de acreditar nos números por volta da terceira mudança. No que ela acreditava, em vez disso, era no som deles mudando — a prova, a cada poucos minutos, de que em algum ponto mais à frente na linha um trem que o levava ainda estava vindo, só que mais devagar do que o prometido.
Dois trens tinham vindo e ido desde que ela se sentara, as portas se abrindo para estranhos que não erguiam os olhos do celular, fechando de novo sobre ninguém que ela esperasse. Mesmo assim ela observou os dois com a mesma atenção, do jeito que se checa se uma porta não é ele, e por um segundo limpo não se sente nem alívio nem decepção. Só informação.
Ela tinha uma frase inteira pronta, gasta de tanto ensaiar — algo sobre as últimas seis semanas, dito com leveza, como se não tivesse custado nada construir. Sentada ali agora, percebeu que já tinha decidido não dizê-la. Melhor deixar que ele perguntasse. Melhor deixar que o não dizer fosse a primeira coisa verdadeira entre eles aquela noite.
O lampião de sódio dois postes adiante zumbia e se estabilizava, zumbia e se estabilizava, lançando a sombra dela longa sobre o concreto molhado que não via chuva havia horas — alguma mangueira de manutenção, alguma explicação comum que ela não foi buscar. Ela gostava mais da plataforma quando parecia assim, recém-lavada. Isso fazia a espera parecer que era para alguma coisa.
Uma corrente fria de ar percorreu o túnel antes de qualquer som, aquela pressão específica que anuncia um trem antes de qualquer outra coisa anunciar. Ela tinha aprendido essa pressão em outras noites, esperando outras pessoas, e nunca tinha se acostumado com o que ela fazia, fundo, no peito dela.
O painel virou de novo. 23h58. Só um minuto agora entre ela e o que fosse sair daquele túnel, e ela o usou como tinha usado todos os outros — sem ensaiar, sem checar o reflexo dela nas janelas escuras do outro lado dos trilhos, só sentada dentro do fato de que ele estava perto, algo completo em si mesmo que ainda não exigia nada dela.
Em algum lugar sob a plataforma, os trilhos começaram a zumbir, uma corrente baixa subindo pelo concreto até as solas dos sapatos dela antes de chegar aos ouvidos como som. Ela se levantou sem decidir. As mãos dela encontraram a alça da bolsa e ficaram paradas ali, esperando junto com o resto dela.
O escuro do túnel foi se ocupando aos poucos — primeiro uma brancura que podia não ser nada, depois, sem dúvida, duas luzes, depois a parede plana do próprio trem deslizando para dentro da luz da plataforma, mais devagar do que ela queria e exatamente tão rápido quanto ia ser.
Ela viu o vagão dele ocupar o lugar bem à frente dela, como o painel finalmente tinha prometido, e ficou muito quieta no último segundo que era só dela — as portas ainda não abertas, o rosto dele ainda não encontrável atrás do vidro, toda a espera ainda intacta por mais uma respiração antes de virar outra coisa completamente diferente.